
BALANÇO DO ENCERRAMENTO DA GREVE DOCENTE DA UnDF – 2026
Seção Sindical dos Docentes da Universidade do Distrito Federal SinDUnDF – ANDES-SN
A greve
A greve dos docentes da Universidade do Distrito Federal durou 52 dias, de 20 de março a 7 de maio de 2026, quando a 29ª Assembleia Geral da categoria deliberou pelo encerramento do movimento e pelo retorno no dia 11 do mesmo mês, mediante assinatura do Termo de Acordo com o Governo do Distrito Federal e a Reitoria, por 34 votos a favor, 2 contra e 1 abstenção.
A deflagração da greve foi aprovada na 22ª Assembleia Geral, em 12 de março de 2026, após mais de um ano de tentativas frustradas de negociação institucional. A notificação formal foi protocolada junto à UnDF e ao GDF em 16 de março, com início da paralisação no dia 20. O movimento foi construído com base em seis eixos de reivindicação: reestruturação da carreira do Magistério Superior; organização do trabalho docente; composição regular dos Conselhos Superiores; realização de eleições para a Reitoria; convocação de classificados no concurso, com atenção aos critérios de classificação das cotas; e melhoria das condições físicas e estruturais da universidade, incluindo a revisão do contrato de aluguel do prédio privado do grupo IESB e a construção de campi em terrenos públicos, com manutenção do uso dos espaços públicos.
A construção do movimento e a solidariedade recebida
Ao longo das primeiras semanas, a categoria realizou rodas de conversa com os docentes nos três turnos, atos públicos no BIOTIC, na Praça do Buriti e no Campus Norte, articulação parlamentar na Câmara Legislativa do DF e reuniões de assessoria com o escritório de advocacia RMH.
A greve foi também um momento de especial projeção da Carreira do Magistério Superior do DF (CMSDF) e da própria instituição, tendo a luta sindical aberto diálogo com diversas instituições e segmentos. O movimento contou com o apoio público do DCA/UnDF, DCE/UNB, Coletivo Afronte!, Fórum Distrital de Educação (FDE), Associação Brasileira de Estudos da TransHomocultura, Sindicato dos Professores no Distrito Federal (SINPRO), Fórum de Educação Infantil do Distrito Federal (FEIDF), Central da Classe Trabalhadora (INTERSINDICAL), Observatório de Educação Básica DF (ObsEB), Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE), Grupo de Trabalho Pró-Alfabetização, Fórum EJA, Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica Profissional e Tecnológica (SINASEFE-Brasília), Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Goiás (ADUEG), Seção Sindical dos Docentes na UECE (SINDUECE), Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de São Paulo (SINTUNIFESP), Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Uberlândia (ADUFU), Associação dos Docentes da Universidade Federal de Catalão (ADCAC), ANDES-SN e PSOL/DF — todas reconhecendo a legitimidade das reivindicações e a seriedade do processo de negociação conduzido pela SinDUnDF.
O processo de negociação: avanços, obstáculos e pressão judicial
O processo não foi linear. Em 26 de março, durante audiência de conciliação no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, foi apresentada proposta de suspensão da greve que os docentes, em assembleia, rejeitaram por considerá-la insuficiente. A categoria manteve o movimento apesar das crescentes pressões, incluindo a imposição de multa judicial em 14 de abril por alegado descumprimento de decisão que determinava 80% de retomada das atividades, e das dificuldades para obter audiência com a Governadora Celina Leão.
O primeiro ponto de virada ocorreu em 15 de abril, quando representantes docentes, acompanhados pelas representantes dos estudantes, foram recebidos pela Governadora Celina Leão no Palácio do Buriti, em reunião com a participação dos deputados distritais Wellington Luiz (MDB), Fábio Félix (PSOL), Chico Vigilante (PT), Gabriel Magno (PT), Ricardo Vale (PT) e Dayse Amarílio (PSB). A Governadora assumiu três compromissos: substituição imediata da Reitora Pro Tempore; manutenção dos estudantes em seus campi de origem; e revisão do contrato de aluguel do prédio privado do IESB feito irregularmente com verba do FunDF. Os deputados reiteraram que as pautas tinham amplo apoio na CLDF. A assembleia docente daquele mesmo dia aprovou, por unanimidade (52 votos a favor, nenhum contra), que essa proposta era suficiente para a suspensão condicional da greve.
Nas duas semanas seguintes, contudo, a Reitora resistiu à exoneração. A mobilização continuou com contatos junto à Governadora em eventos públicos, reuniões na CLDF com diversos deputados e, não menos importante, a mobilização de rua. O momento decisivo ocorreu em 28 de abril, com o ato massivo na CLDF. Docentes e estudantes, representados pelo DCA, foram conduzidos pelo Deputado Chico Vigilante à sala anexa do Plenário da CLDF para reunião com o presidente da Câmara Legislativa, Deputado Wellington Luiz, o qual contatou a Governadora e obteve a confirmação de que a substituição seria publicada na próxima edição do DODF. Em seguida, no plenário, os deputados Fábio Félix (PSOL), Chico Vigilante (PT), Gabriel Magno (PT) e Ricardo Vale (PT) cobraram publicamente o cumprimento dos compromissos assumidos pela Governadora.
Com a nomeação da nova Reitora Pro Tempore, Fernanda Marsaro dos Santos, abriu-se caminho para a formalização do acordo. A reunião de 5 de maio com a nova Reitoria discutiu a proposta final, que foi submetida à apreciação e aprovada pela assembleia docente em 7 de maio.
O que foi acordado
O Termo de Acordo estabelece os seguintes compromissos por parte do GDF e da UnDF:
- Envio de Projeto de Lei à CLDF para unificação dos cargos de tutor e professor, sem impacto orçamentário;
- Instituição, em 15 dias, de Grupo de Trabalho com a UnDF, CACI/DF e SEEC/DF para revisão da Lei nº 6.969/2021, com discussão de carga horária mínima, uso do PIT/RIT em substituição à folha de ponto e retomada da proposta de reestruturação da carreira;
- Garantia de que não haverá corte de ponto ou salário, com calendário de reposição a ser negociado com participação docente;
- Suspensão do edital de eleições para Reitor para revisão do Decreto nº 46.872/2025, com foco na proporcionalidade entre os segmentos da comunidade acadêmica;
- Composição gradual dos Conselhos Superiores com servidores da carreira docente nos cargos natos;
- Garantia de conclusão das turmas iniciadas nos campi ESG/EGOV e Campus Norte no espaço do Campus Norte, com novas entradas direcionadas ao Campus Ceilândia;
- Manutenção da Mesa de Negociação permanente.
O que ficou de fora
O acordo não contempla as reivindicações com impacto financeiro em razão das restrições impostas pela legislação eleitoral e pela Lei de Responsabilidade Fiscal: a reestruturação salarial da carreira, a gratificação por magistério superior, o regime de dedicação exclusiva e as gratificações por titulação e para as funções de coordenação. Há resistência do governo à inclusão da revisão salarial na LDO de 2027, o que deverá ser pauta de mobilizações próximas.
Podemos falar em vitória?
As conquistas expressas no acordo são parciais e não alcançam a integralidade da pauta reivindicatória. Mas uma greve não se avalia apenas pelo resultado formal: avalia-se também pelo processo organizativo que promove, pela pressão política que gera e pelo fortalecimento que deixa na categoria e na entidade sindical.
Nesse sentido, a greve de 2026 representou conquistas concretas e simbólicas de peso. A substituição da Reitora Pro Tempore — que ao longo de anos acumulou um histórico de intransigência, descumprimento de decisões judiciais e obstaculização das reivindicações docentes — foi resultado direto da pressão exercida ao longo de três anos, que culminou na greve. A garantia de que algumas das turmas em andamento não serão transferidas para o prédio alugado do IESB mitiga o impacto sobre estudantes e docentes, ainda que seja uma solução insatisfatória. A abertura de um Grupo de Trabalho com prazo definido, com participação do sindicato, da Reitoria, da SEEC/DF e da CACI/DF, representa uma conquista para a continuidade das negociações.
A greve demonstrou ainda a capacidade de mobilização da SinDUnDF: foram sete semanas de assembleias frequentes, articulação parlamentar, pressão junto ao Executivo distrital, construção de frentes de solidariedade e resistência à pressão judicial. A categoria provou ser capaz de sustentar um movimento organizado, democrático e politicamente qualificado.
A pauta que permaneceu em aberto — a reestruturação salarial da carreira — segue sendo a principal bandeira da categoria. A SinDUnDF estará atenta ao cumprimento do acordo, à tramitação do PL de unificação dos cargos, às negociações sobre carga horária e controle do trabalho, à composição e atuação dos Conselhos, ao processo eleitoral para a Reitoria e à expansão responsável da universidade, garantindo patrimônio próprio e nomeação de docentes concursados com respeito à ordem das cotas.
A luta continua!
SinDUnDF – ANDES-SN | Brasília, 14 de maio de 2026

